Amargo Pesadelo
Diante desse “Amargo Pesadelo” (Deliverance, EUA, 1972) é impossível não louvar a revolução estética que o cinemão americano brilhantemente construiu nos anos de 1970. Na história dos 4 amigos da cidade que vão se embrenhar nas matas para descer de canoa um rio que está prestes a desaparecer em rol de uma represa não está somente explícita a atmosfera de aventura que certamente se desenrolará; está, mais do que isso, a possibilidade de exercício de um revolucionário e incipiente cinema realista que tomava conta das telas naqueles formidáveis anos 70. E Boorman não fez por menos. “Deliverance” é um ótimo exemplar desse cinema revolucionário. Os anos 70, isso deveria ser mais exposto, é a decada do neo-realismo do cinema americano. A consolidação do cinema moderno. O salto foi enorme; tudo de repente passou a ser novo: a maneira seca de filmar, o timing realista dos diálogos e da interação entre os atores em cena, abordagem corajosa de temas.
Boorman aqui se apropria da história de aventura dos seus 4 heróis para nos brindar com um inesquecível exercício de puro cinema. Cria um clima de terror não-sensacionalista, com a ausência de música (a não ser o das corredeiras do rio e dos pássaros da floresta), o que resulta em um tom quase documental. Além disso é emocionante ver a transformação que se opera diante de nós. Deliverance mostra que não é somente na adolescência que se operam os ritos de passagens. Experiências transformadoras, sabemos, ocorre em qualquer fase da vida. Os 4 heróis aqui enfrentando a imprevisível e indomada natureza, através da travessia do rio através da mata fechada (numa viagem cheia de atordoantes e imprevisíveis percalços) e ainda tendo que lidar com a hostilidade de caipiras hostis, constiui-se numa tremenda odisséia de angústia. Quanto mais quando a partir de determinado momento vão ter que simplesmente luta pela própria vida. Instaura-se então o verdadeiro clima de pesadelo. Não está entre meus favoritos, mas inegavelmente é um grande filme!









