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Archive for fevereiro \28\UTC 2010

Amargo Pesadelo

Diante desse “Amargo Pesadelo” (Deliverance, EUA, 1972) é impossível não louvar a revolução estética que o cinemão americano brilhantemente construiu nos anos de 1970. Na história dos 4 amigos da cidade que vão se embrenhar nas matas para descer de canoa um rio que está prestes a desaparecer em rol de uma represa não está somente explícita a atmosfera de aventura que certamente se desenrolará; está, mais do que isso, a possibilidade de exercício de um revolucionário e incipiente cinema realista que tomava conta das telas naqueles formidáveis anos 70. E Boorman não fez por menos. “Deliverance” é um ótimo exemplar desse cinema revolucionário. Os anos 70, isso deveria ser mais exposto, é a decada do neo-realismo do cinema americano. A consolidação do cinema moderno. O salto foi enorme; tudo de repente passou a ser novo: a maneira seca de filmar, o timing realista dos diálogos e da interação entre os atores em cena, abordagem corajosa de temas.

Assassinato na floresta. Clímax e realismo em Deliverance.

Boorman aqui se apropria da história de aventura dos seus 4 heróis para nos brindar com um inesquecível exercício de puro cinema. Cria um clima de terror não-sensacionalista, com a ausência de música (a não ser o das corredeiras do rio e dos pássaros da floresta), o que resulta em um tom quase documental. Além disso é emocionante ver a transformação que se opera diante de nós. Deliverance mostra que não é somente na adolescência que se operam os ritos de passagens. Experiências transformadoras, sabemos, ocorre em qualquer fase da vida. Os 4 heróis aqui enfrentando a imprevisível e indomada natureza, através da travessia do rio através da mata fechada (numa viagem cheia de atordoantes e imprevisíveis percalços) e ainda tendo que lidar com a hostilidade de caipiras hostis, constiui-se numa tremenda odisséia de angústia. Quanto mais quando a partir de determinado momento vão ter que simplesmente luta pela própria vida. Instaura-se então o verdadeiro clima de pesadelo. Não está entre meus favoritos, mas inegavelmente é um grande filme!

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Zombie 2

Uma coisa ninguém pode negar: Lucio Fulci sabe criar uma atmosfera de terror. Mais: sabe criar pequenos anti-clímax como poucos. Mesmo que gratuitamente; mesmo que esses anti-clímax e seus desfechos, isolados, não acrescentem muito ao conjunto. Mas, bastam por si mesmos e atestam a capacidade de grande esteta desse cineasta deslocado. Por exemplo: a segunda sequência de “Zombie 2” (Zombie, ITA, 1979), logo na abertura, mostra do alto o pequeno veleiro à deriva no Rio Hudson, com a estátua da liberdade ao fundo, e toda a silhueta dos arranhas-céus de Manhatan. Bonito. Aos poucos vamos ficar sabendo que o barco está vazio, que algo misterioso ocorreu. Uma patrulha marítima se aproxima, aborda e adentra a embarcação. O desenrolar da sequência dá uma pista do que se virá. Pelo modo como se dá a apresentação do primeiro zumbi, fica claro que esse será um filme de morto-vivo diferente. Rapidamente, numa sucessão exemplar de acontecimentos, temos um quarteto (dois casais) se dirigindo à misteriosa ilha perdida no Caribe onde se investigará à causa dos misteriosos acontecimentos dos mortos voltando à vida.

A primeira pergunta que se pode fazer: Ah, então teremos um filme de zumbi em que se tentará elaborar uma justificativa plausível (por mais inverossímil que seja, óbvio) para a origem dessas horrendas criaturas? É o que o desenrolar dos acontecimentos até certo momento nos fará crer. Mas não só isso. Fulci, com material tão banal, repulsivo e desprezível, filma (como é habitual) com tanto rigor, tanta engenhosidade na construção da mise-en-cene, enquadrada com tanto estilo e equilibrio, que é impossível duvidar (até certo ponto) daquilo que é mostrado. Mesmo que gratuitos alguns momentos são de fato antológicos: fácil apontar toda a sequência da preparação do mergulho da moça em alto mar até o inacreditável desfecho, lá no fundo dágua, da luta do zumbi com um tubarão: passa-se do frenesi da sensualidade da dança aquática da mulher ao puro terror da luta dela com o zumbi e, aliviados e zombeterios, vemos o duelo desse com o Tubarão. Criativo e genial.

No entanto, algo nunca se encaixa em filmes de zumbis. São toscas e irrisórias as tentativas de justificá-los, e toda a conversa fiada do viés científico/investigativo empreendida pela espécie de cientista louco que estuda as criaturas na ilha, logo vem abaixo quando os zumbis partem pra fazer aquilo em que eles realmente são bons: botar o terror, dirigir-se lenta e implacavelmente na direção dos vivos, que acuados e impotentes, pouco têm a fazer para evitar de serem devorados. Filme de zumbi, sabemos, é para isso mesmo. Então não adianta reclamar. Mas fica a frustrada  sensação de que Fulci não estava nem aí para a enganosa consistência místico-religiosa que até então estava sendo arquitetada (ainda que de forma vaga) e, numa evidente “pressa” para acabar logo com aquilo, tenha partido logo pros finalmente. Afinal filme de zumbi é pra quê? Não adianta reclamar.

Zumbis caminham para dominar Nova Yorque: evidente vigor criativo.

Finalizando, nunca vou deixar de me espantar diante do fato de como um cineasta com o talento de um Lucio Fulci de certa forma tenha se perdido em tão toscas e baratas produções. Mas uma coisa é certa: ao dispor sua evidente genialidade, rigor formal e vigor criativo a serviço de tralhas como essas (e outras afins) ao menos ele nos legou peças inegavelmente sedutoras e de uma estranha beleza.

A Fonte da Donzela

Esse é um filme que seduz. Desde as primeiras cenas, quando somos inseridos em um ambiente completamente arcaico, rural e primitivo de uma casa, e seus habitantes, isolados em um confim qualquer. Estamos na Idade Média. Os seres que protagonizam esse drama são esfarrapados, alguns loucos, desdentados, descabelados. Deslocam-se em chãos enlameados onde galinhas cacarejam e galos cantam. O ambiente nos interiores é de escuridão e de precariedade. A luz que advém é de pequenas fogueiras acessas dentro de casa, na cozinha, ou de fachos de luz que penetram aqui e ali por rachaduras ou por toscas janelas de madeira. É uma luz reconfortante. Jamais um filme foi tão escrupulosamente iluminado como esse “A fonte da Donzela” (Jungfrukällan, SUE, 1963). As imagens geradas são de uma beleza indescritível. Mais ainda: Jamais um filme de gente suja, feia e malvada foi tão bem iluminado e fotografado. Grande parte do encanto desse filme reside aqui. Bastaria para justificar vê-lo a todo custo! Porém, o filme é muito, muito mais que isso.

O que temos aqui, afinal? Uma fábula para adultos. Orquestrada de forma tão simples e direta que chega a comover. Temos uma família rigorosamente religiosa, daquelas que não soltam um arroto sem depois louvar a deus por isso. Há duas filhas. Uma se desviou, engravidou ilegitimamente e meio que pirou! A outra é a tal donzela do título. Linda de morrer. Virginal. Graciosa. Inocente. Numa bela sexta-feira da paixão de manhã ensolarada ela é designada pelos pais a atravessar a sombria floresta (acompanhada da irmã biruta), as duas cavalgando, para levar à Igreja as velas para a Missa sagrada. Só que no meio do caminho encontram um trio de malignos pastores e aí já viu, né?

A donzela cai nas garras dos Lobos. Momento crucial do filme.

Quem ainda não conhece o cinema de Bergman, certamente deve começar por esse. Aqui não há o blábláblá religioso-metafísico, que pode soar excessivo pros iniciados, presente no sempre indicado “O sétimo selo” nem a cansativa reminiscência poética de “Morangos silvestres”. Não, não se deve iniciar Bergman por esses citados filmes. Quando que a crítica especializada vai aprender a modernizar e rever seus jurássicos conceitos?

Pois aqui a história é diferente. Aqui é onde Bergman deixa um pouco de lado o discurso e parte pra ação, vamos colocar assim. Onde de forma excepcional nos mostra o choque concreto e real entre duas realidades extremamente distintas para ver o que ocorre. A inocência e a beleza da donzela confrontados de modo explícito com a brutalidade de homens perversos e instintivos. Essa sequência no meio da floresta é forte. Violenta. Aterradora. Não há como não dizer: a virgem será brutalmente violada. Tudo encenado de forma direta, seca, sem espetacularização.

A partir de então, cometido o delito, o bando em fuga vai cruzar o caminho da família da moça. E descobrindo a identidade deles, o que poderá fazer um homem temente a deus, que ao que tudo indica sempre foi pacífico? Não se enganem. A violência vai explodir. Em sequencias enxutas, secas, atordoantes. Um Bergman brutal, realista, angustiante. Em que o homem mais nada é do que demasiadamente humano apenas, e isso basta.

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O Mensageiro do Diabo

Praticamento tudo que leio (e li no decorrer dos anos) a respeito desse “O mensageiro do Diabo” (The Night of the Hunter, EUA, 1955) dá conta de que além de ser um filme fundamental para a consolidação do gênero terror no cinema, apresentava uma brilhante e exemplar caracterização da figura do psicopata, interpretado aqui por Robert Mitchum. Mas a verdade tem que ser dita. O filme não é uma coisa nem outra. Definitivamente não é uma obra aterradora, como apregoam seus admiradores, e, pelo amor de deus, Mitchum é um canastrão de marca maior! Que interpretação antológica que nada!, quem defende isso parece que bebe, ele simplesmente quase destrói o filme com sua patética, constrangedora e uniforme carcaterização!

Porém, vamos por parte. A premissa é boa, muito boa. Mitchum faz um pastor picareta, assassino e ladrão. Na cadeia conhece um homem que assaltou um banco e, antes de ser preso, escondeu o dinheiro em algum lugar da própria casa e só contou o segredo para os 2 filhos pequenos. Quando o pastor sai da cadeia, vai à cidadezinha onde se deu o fato para tentar seduzir a viúva do assaltante e conquistar a simpatia das crianças, com o intuito, claro, de que essas lhe revelem o destino da bolada.

Há que se fazer, entretanto, a abordagem correta para melhor apreciar esse filme. De fato, no saldo o filme é muito bom. A câmera praticamente não se move, os quadros são estáticos. Uma sucessão de belas imagens expressionistas, num impressionante preto & branco, com os personagens se movendo dentro dessa “moldura”. Mas o ritmo é fluente, agradável, o filme não empaca em nenhum momento. Contudo, por ser um filme “de terror” americano dos anos 1950 é previsível que a construção dramática em relação a isso seja falha, e como é! Assustar o filme não assuta, e até o clima de suspense dele é fraco. Hitchcock em filme menores fez muito melhor!

Mitchum: psicopata e canastrão em ação. Filme tem belas imagens.

O que sobra então? Por que ver O mensageiro do Diabo? Fácil. Em meio à sua imperfeição – reviravoltas mirabolantes demais, soluções fáceis para atitudes extremas, personagens caricatos (inclusive o pastor psicopata), e etc – revela-se, lá pela metade final do filme, a chave para seu pleno entendimento. É que deve-se abordar O mensageiro do Diabo como uma fábula infantil e olhá-lo pelos olhos das crianças. O filme cresce quando de fato elas, depois de ficarem órfãs tambem de mãe, empreendem desamparadas uma fuga fantástica através dos campos, rios e florestas, com o vilão, tal qual um Lobo mau dos contos infantis, onipresente em seu encalço. Realmente esse momento do filme é tão pueril, inocente e inverossímel quanto bonito. O destino das crianças quando atingem a cidadezinha mais próxima vai selar e confirmar o verdadeiro tom de contos de fadas desse curioso e superstimado filme. Longe de ser tudo o que falam dele (sobretudo por ter envelhecido mal) mantém-se contudo intacto em sua beleza pictórica, em seu tom de pastoral e de vida campestre, e, por esses detalhes (quase sempre não mencionados) é que merece -e deve- ser visto.

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O Vingador Silencioso

Um filme poderoso como “Il Grande Silenzo” (ITA/FRA, 1968), dignifica esplendorosamente esse gênero subestimado que são os Western Spaghetti. E não deixa de assombrar o fato de como um cineasta como Sergio Corbucci é solenemente ignorado até hoje pelo cânone sagrado da crítica cinematográfica. Eis uma injustiça clamorosa. O homem dirigiu pelo menos 5 obras-primas do Spaghetti (mais até do que o incensado xará Leone) e – independente de ele ter sido ou não bem-sucedido em outras fase da carreira dirigindo outros gêneros – só isso deveria ser capaz de colocá-lo na dimensão dos maiores cienastas da história (na medida do possível vou defender isso aqui).

O que temos nesse, que seguramente é sua obra-mestra? temos um filme irresistível. Basta pregar os olhos na sequência de abertura para não mais despregá-los da tela. Temos, só pra começar, a paisagem álgida e extremamente branca, com vales e montanhas cobertas de neve, onde se desenrolará a trama. A subversão começa aqui. Quem disse que nos faroestes (sejam eles italianos ou americanos) só faz verão escaldante? Logo a seguir temos exposto o conflito que sustentará o filme: o embate entre caçadores de recompensas e a chamada Comunidade-de-foras-da-lei, bando de párias e proscritos que vivem refugiados nas florestas e montanhas. Com a cabeça à prêmio não há muita alternativa. Em meio a isso temos a lei tentando se estabelecer nesse ambiente, na figura de um xerife bem intencionado mas meio bobalhão, e, como não podia faltar, a aparição do ‘cavaleiro solitário’, a figura mais mítica do gênero, o gatilho mais rápido do oeste! Sempre uma personagem de intenções dúbias, situada no limite do que é ou não legal (mas no fundo sempre em busca de uma vingança pessoal), o misterioso cowboy aqui é fantasticamente interpretado pelo grande Jean-Louis Trintignant. Numa forma de radicalizar o aspecto caladão desse tipo de personagem, aqui simplesmente ele não fala porque é mudo. O contraste é o mais temível e cruel caçador de recompensas, sujeito falastrão e debochado, criado de forma brilhante pelo genial Klaus Kinski. Não é difícil prever que os caminhos de ambos não demorarão a se cruzar.

Nesse meio tempo, porém, temos o espetáculo de um filme perfeito. É evidente o vigor e o prazer com que Corbucci filmava nesse época. Sua câmera ora baila em movimentos suaves, ora se fixa estaticamente para frisar um detalhe, fixar um rosto. Alterna de forma empolgante entre os planos gerais e abertos e aqueles fechados (como deve ser num filme de mestre). Distanciamento e aproximação. Enquadra com equilíbio, produzindo imagens “despoluídas” visualmente e de grande impacto. Edição primorosa, montagem precisa. Música? Dos melhores trabalhos do fabuloso Ennio Morricone. Precisa mais? “Il Grande Silenzo”, meus amigos, é cinema em estado bruto!

Enfim, o belo e o maldade, são onipresentes em O Vingador silencioso. Isso é mais um elemento que se sobressai nesse insólito Spaghetti. Quem não se surpreende com a belíssma e inustada afetuosidade da cena que antecede a noite de amor entre o Vingador e a viúva que o contrata, embalada por uma celestial suíte de violoncelo? Esse, a propósito, é como se fosse o último momento luminoso e reconfortante, antes do ínicio da impressionante sequência final. Onde, elevando o suspense e a tensão às raias do insuportável, tudo explode numa violência cruel e imprevisível, numa orquestração extasiante de imagens, até o epílogo desalentador desse que é, sem dúvida, o mais apocalíptco dos westerns! Não somente um dos melhores Spaghetti, mas sem dúvida um dos melhores filmes de todos os tempos!

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Cemitério Sem Cruzes

Como todo bom Spaghetti que se preze, nesse “Cimitero Senza Croci” (ITA/FRA, 1968) o espírito da vingança é que move os personagens. Temos o clássico conflito de terras, em que, devido a uma rixa, logo na abertura do filme, um pequeno proprietário é caçado como um animal e enforcado covardemente na frente da esposa. Esta empreendererá então um fria e meticulosa revanche, auxiliada por um típico cavaleiro solitário, amigo do marido.

O vingador, representado pelo o ator (e também diretor do filme) Robert Houssein, é um cowboy amargurado e taciturno, único habitante de uma cidade-fantasma perdida no deserto.

O sentimento de desamparo e solidão, aliás, dão a tônica desse belo e surpreendente filme. Desde o princípio somos confrontados com a impotência e o sentimento trágico, que permeiam toda a narrativa: quem ouve as deseperadas súplicas da esposa diante do enforcamento do marido? Quem pode entender ou suportar o completo isolamento do herói numa cidadela devastada e sombria? Quem poderá impedir o rapto da filha do fazendeiro, desprotegida na casa vazia no meio do nada? Para consolidar tal sentimento que nos atordoa, Cemitério Sem Cruzes, um filme extremamente silencioso e quase mudo, não prescinde (muito sábia e brilhantemente) de nos inundar com pequenos, cristalinos e atordoantes sons. Penso que Houssein concebeu sua obra-prima desde o princípio somente para nos deleitar com (em meio ao silêncio das solidões desérticas) o som dos trotes da cavalaria em perseguição, o som cristalinos dos talheres durante a refeição, o som das botas pisando enfaticamente no soalhos, o som das moedas tilintando atabalhoadamente quando despejadas sobre a mesa, o som de um relincho. Sem contar portas e janelas que rangem. É um filme sonoricamente muito rico, aspecto que facilmente salta logo aos ouvidos atentos. Bem apropriado para aguçar os sentidos. Que outro western, quanto mais um sapghetti, se deu ao luxo de tanta minúncia, tanta precisão na parte sonora? E olha que o cinema europeu dos anos 60 com relação à edição de som, como sabemos, não era lá essas coisas! O que só multiplica o mérito dessa investida aqui exposta.

Por fim, para além de ser um formidável entretenimento, com sua narrativa fluida e hipnótica, de poucas palavras e baseada na imagem e no som, e com suas pequenas e precisas reviravoltas, com os típicos simbolismos e código de conduta dos homens e mulheres do “velho oeste”, Cemitério sem cruzes também é um filme denso e triste, muito triste. Seu melodramático (e por vezes pungente) tema musical (que se repete ao longo da história) só serve para enfatizar ainda mais o tom desolado dessa dolorida e trágica aventura.

A hora do pesadelo

Com séculos de atraso vi outro dia o cultuado “A hora do pesadelo” (A Nightmare On Elm Street, EUA, 1984). O pressuposto no roteiro, como todo mundo sabe, é no mínimo original (até onde minha ignorância relativa a filmes de terror pode alcançar): um vilão, um monstro, um serial killer (Ou seja lá que diabos seja Freddy Kruegger) dos pesadelos interagindo de alguma forma com o mundo real fora dos sonhos. Ou sendo mais específico: O acontece nos pesadelos dos protagonistas, quando são assediados e atacados pela sinistra criatura, é constatado fisicamente quando eles acordam: se são feridos nos sonhos, amanhecem sangrando; se são mortos nos sonhos…

Acontece que, sinceramente, Freddy Krueger não mete medo em ninguem – a não ser em criancinhas. Deveríamos sentir medo junto com os protagonistas, compartilhar de suas apreensões, agonias, angústias. E o filme é completamente falho nisso. A protagonista, por exemplo – cuja atriz não me darei ao trabalho de procurar o nome – simplesmente “passeia” pelos próprios pesadelos, com Freddy à espreita (e ela sabendo disso), como se estivesse passeando por um bosque ensolarado. Cândida, tranquila. Está certo que é muito ruim a atriz, mas pelo menos podia ter se esforçado mais. Aqui se tem um bom exemplo de como interpretações insossas contribui pesadamente para o naufrágio de um filme.

E quanto ao senhor Freedy Kruger, sabe qual é o problema dele? Constatei depois que o filme acabou. O problema é que ele, em virtude da maneira caricata e horrenda com que foi construído, FOI FEITO pra assustar, tem a OBRIGAÇÃO de assustar. Ora, sabe-se muito bem que um legítimo filme de terror não funciona muito bem por aí. Sem me aprofundar muito no assunto: é mais fácil se apavorar com uma coisa insuspeita que se vira contra nós do que com aquilo que esperamos que se vire contra nós. Um personagem como Freddy carece do elemento surpresa e isso destrói completamente seu potencial.

O que temos é um amontoado muito fraco de clichês. Entretanto, muito pior que é um amontoado de clichês orquestrados por um completo sem-talento como esse Wes Craven. Esse nunca me enganou. Se fossem clichês bem orquestrados e compostos, que brincassem com os recursos de que a narrativa cinematográfica é capaz (como faz um De palma, por exemplo), seria esse um filme aceitável. Para completar o fiasco, que final apelativo, dispensável e completamente ridículo é aquele? Pelo menos resume perfeitamente o que o filme é: uma compilação absolutamente gratuita de cenas supostamente assutadoras que não se harmonizam nem se complementam em momento algum do filme. Esse Wes craven, repito, nunca me enganou…

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