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Cemitério Sem Cruzes

Como todo bom Spaghetti que se preze, nesse “Cimitero Senza Croci” (ITA/FRA, 1968) o espírito da vingança é que move os personagens. Temos o clássico conflito de terras, em que, devido a uma rixa, logo na abertura do filme, um pequeno proprietário é caçado como um animal e enforcado covardemente na frente da esposa. Esta empreendererá então um fria e meticulosa revanche, auxiliada por um típico cavaleiro solitário, amigo do marido.

O vingador, representado pelo o ator (e também diretor do filme) Robert Houssein, é um cowboy amargurado e taciturno, único habitante de uma cidade-fantasma perdida no deserto.

O sentimento de desamparo e solidão, aliás, dão a tônica desse belo e surpreendente filme. Desde o princípio somos confrontados com a impotência e o sentimento trágico, que permeiam toda a narrativa: quem ouve as deseperadas súplicas da esposa diante do enforcamento do marido? Quem pode entender ou suportar o completo isolamento do herói numa cidadela devastada e sombria? Quem poderá impedir o rapto da filha do fazendeiro, desprotegida na casa vazia no meio do nada? Para consolidar tal sentimento que nos atordoa, Cemitério Sem Cruzes, um filme extremamente silencioso e quase mudo, não prescinde (muito sábia e brilhantemente) de nos inundar com pequenos, cristalinos e atordoantes sons. Penso que Houssein concebeu sua obra-prima desde o princípio somente para nos deleitar com (em meio ao silêncio das solidões desérticas) o som dos trotes da cavalaria em perseguição, o som cristalinos dos talheres durante a refeição, o som das botas pisando enfaticamente no soalhos, o som das moedas tilintando atabalhoadamente quando despejadas sobre a mesa, o som de um relincho. Sem contar portas e janelas que rangem. É um filme sonoricamente muito rico, aspecto que facilmente salta logo aos ouvidos atentos. Bem apropriado para aguçar os sentidos. Que outro western, quanto mais um sapghetti, se deu ao luxo de tanta minúncia, tanta precisão na parte sonora? E olha que o cinema europeu dos anos 60 com relação à edição de som, como sabemos, não era lá essas coisas! O que só multiplica o mérito dessa investida aqui exposta.

Por fim, para além de ser um formidável entretenimento, com sua narrativa fluida e hipnótica, de poucas palavras e baseada na imagem e no som, e com suas pequenas e precisas reviravoltas, com os típicos simbolismos e código de conduta dos homens e mulheres do “velho oeste”, Cemitério sem cruzes também é um filme denso e triste, muito triste. Seu melodramático (e por vezes pungente) tema musical (que se repete ao longo da história) só serve para enfatizar ainda mais o tom desolado dessa dolorida e trágica aventura.

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  1. 25/02/2010 às 15:37

    esse é um dos meus filmes prediletos! obra-prima absoluta!

    • 25/02/2010 às 16:21

      Putz, você sempre me falou desse, Herax, e até hoje não vi…

      Sobre um Western com preocupação sonora, temos a abertura de Era uma Vez no Oeste, que até hoje permanece imbatível neste aspecto.

      • 25/02/2010 às 16:38

        Ah, claro! Era uma vez… É unamidade inquestionável e tudo o mais o que sabemos. Mas, foi um filme concebido com baldes de dinheiro dos americanos, né? Sem contar tambem que veio depois desse aqui.

  2. 25/02/2010 às 15:58

    Também considero uma obra-prima e esta entre os meus preferidos. Top 5.

    • Ronnie
      25/02/2010 às 16:02

      Top 5 de Spaghetti, ou de filmes em geral? Não me surpreendo se for dos 2! hehe. Valeu Octavius.

      • 26/02/2010 às 13:46

        Podemos dizer que é top 5 Western All’Italiana e top 10 filmes geral.
        Ainda falta muito filmes para eu assistir e mesmo assim já existem muitas obras-primas que brigam por estar nesses tops… hehehe…

  3. 25/02/2010 às 16:27

    pro Cimitero eu uso o mesmo pensamento que voce usou para falar do Il grande silenzio, que não se trata apenas de um dos melhores spaghetti-westerns, e sim de um dos grandes filmes do cinema – imagino que o Octavius pense o mesmo – lembro quando o Octavius apareceu lá em casa com um VHS desse filme dizendo pra mim: “voce precisa assistir isso agora” – uma hora e meia depois depois eu estava de queixo caído dizendo “puta que pariu” repetidas vezes

    • 25/02/2010 às 16:36

      “lembro quando o Octavius apareceu lá em casa com um VHS desse filme dizendo pra mim: “voce precisa assistir isso agora” – uma hora e meia depois depois eu estava de queixo caído dizendo “puta que pariu” repetidas vezes” Ahahahaha. Ótima essa! Segredos Biográficos.

    • 26/02/2010 às 13:47

      E o pior é que o VHS já era cópia da cópia da cópia… e mesmo com qualidade baixa foi uma experiência cinematografica avassaladora .

  4. Cesar Almeida
    25/02/2010 às 18:09

    Um dos meus preferidos de todos os tempos. É impressão minha ou os franceses (Trintignant, Houssein) são fantásticos protagonistas de westerns? Eu diria também que são grandes autores e diretores de western, tanto quanto os italianos. Pena que Houssein não fez outros (sem contar o raríssimo Le Gout de La Violence, em preto e branco).

    • 26/02/2010 às 14:19

      Sempre tive curiosidade em assistir o Le Gout de La Violence, mas nunca consegui achar esse filme.

  5. 25/02/2010 às 20:46

    O Perrone tem razão em apontar o filme de Leone como um filme preocupado com os sons, mas devo acrescentar que este “Cemitério sem cruzes” foi pioneiro já que foi filmado antes do filme de “Aconteceu no oeste”, ainda que só tenha sido distribuído mais tarde. Este é um daqueles filmes que de tão simples se torna genial.

  6. 01/03/2010 às 16:23

    Interessante a comparação deste com o “Era uma Vez no Oeste”. Mas ninguém falou que ambos os filmes tiveram como um dos roteristas o Dario Argento!

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