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O Vingador Silencioso

Um filme poderoso como “Il Grande Silenzo” (ITA/FRA, 1968), dignifica esplendorosamente esse gênero subestimado que são os Western Spaghetti. E não deixa de assombrar o fato de como um cineasta como Sergio Corbucci é solenemente ignorado até hoje pelo cânone sagrado da crítica cinematográfica. Eis uma injustiça clamorosa. O homem dirigiu pelo menos 5 obras-primas do Spaghetti (mais até do que o incensado xará Leone) e – independente de ele ter sido ou não bem-sucedido em outras fase da carreira dirigindo outros gêneros – só isso deveria ser capaz de colocá-lo na dimensão dos maiores cienastas da história (na medida do possível vou defender isso aqui).

O que temos nesse, que seguramente é sua obra-mestra? temos um filme irresistível. Basta pregar os olhos na sequência de abertura para não mais despregá-los da tela. Temos, só pra começar, a paisagem álgida e extremamente branca, com vales e montanhas cobertas de neve, onde se desenrolará a trama. A subversão começa aqui. Quem disse que nos faroestes (sejam eles italianos ou americanos) só faz verão escaldante? Logo a seguir temos exposto o conflito que sustentará o filme: o embate entre caçadores de recompensas e a chamada Comunidade-de-foras-da-lei, bando de párias e proscritos que vivem refugiados nas florestas e montanhas. Com a cabeça à prêmio não há muita alternativa. Em meio a isso temos a lei tentando se estabelecer nesse ambiente, na figura de um xerife bem intencionado mas meio bobalhão, e, como não podia faltar, a aparição do ‘cavaleiro solitário’, a figura mais mítica do gênero, o gatilho mais rápido do oeste! Sempre uma personagem de intenções dúbias, situada no limite do que é ou não legal (mas no fundo sempre em busca de uma vingança pessoal), o misterioso cowboy aqui é fantasticamente interpretado pelo grande Jean-Louis Trintignant. Numa forma de radicalizar o aspecto caladão desse tipo de personagem, aqui simplesmente ele não fala porque é mudo. O contraste é o mais temível e cruel caçador de recompensas, sujeito falastrão e debochado, criado de forma brilhante pelo genial Klaus Kinski. Não é difícil prever que os caminhos de ambos não demorarão a se cruzar.

Nesse meio tempo, porém, temos o espetáculo de um filme perfeito. É evidente o vigor e o prazer com que Corbucci filmava nesse época. Sua câmera ora baila em movimentos suaves, ora se fixa estaticamente para frisar um detalhe, fixar um rosto. Alterna de forma empolgante entre os planos gerais e abertos e aqueles fechados (como deve ser num filme de mestre). Distanciamento e aproximação. Enquadra com equilíbio, produzindo imagens “despoluídas” visualmente e de grande impacto. Edição primorosa, montagem precisa. Música? Dos melhores trabalhos do fabuloso Ennio Morricone. Precisa mais? “Il Grande Silenzo”, meus amigos, é cinema em estado bruto!

Enfim, o belo e o maldade, são onipresentes em O Vingador silencioso. Isso é mais um elemento que se sobressai nesse insólito Spaghetti. Quem não se surpreende com a belíssma e inustada afetuosidade da cena que antecede a noite de amor entre o Vingador e a viúva que o contrata, embalada por uma celestial suíte de violoncelo? Esse, a propósito, é como se fosse o último momento luminoso e reconfortante, antes do ínicio da impressionante sequência final. Onde, elevando o suspense e a tensão às raias do insuportável, tudo explode numa violência cruel e imprevisível, numa orquestração extasiante de imagens, até o epílogo desalentador desse que é, sem dúvida, o mais apocalíptco dos westerns! Não somente um dos melhores Spaghetti, mas sem dúvida um dos melhores filmes de todos os tempos!

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  1. 25/02/2010 às 15:39

    eu amo esse filme, considero obra-prima tambem, mas meu Corbucci preferido ainda é o COMPANEROS

    • Ronnie
      25/02/2010 às 16:00

      Ah, amigo Herax, esse verei em breve. Uau, fico feliz com essa divergência pois atesta a excelência desse grande cineasta! Mas sabe outro filme sublime e sensacional dele? “Gli specialisti”, já viu? Nossa, em matéria de direção talvez seja até melhor que Il grande Silenzo! E olha que ainda se tem “Navarro Joe” e “Il Mercenario”, heim!… Ave, Corbucci!!!!

  2. 25/02/2010 às 15:58

    Corbucci é o cara, tem muitos filmes bons. Companeros é obra-prima também.

  3. 25/02/2010 às 16:28

    Compañeros é um filmaço mesmo. Grande Corbucci! Mas eu tenho um sentimento maior por este aqui, Il Grande Silenzio, principalmente por causa final negativo, que me deixou arrasado durante um breve período…

  4. 25/02/2010 às 18:13

    Corbucci é o maior diretor do Spaghetti Western. Prego isso há muito tempo. Vivo levando pedradas e recebendo ameaças de morte, mas não abro mão de meu ponto de vista.
    Nenhum filme me chocou tanto quanto o Silenzio. Nada no cinema te prepara para ele. Nem o Peckinpah.

    Belo blog, Fidani! Já sou fã.

    • 25/02/2010 às 20:55

      E se eu dissesse que o Valerii é que é o melhor? Isso sim dava porrada na certa!
      Entendo apesar de tudo este ponto de vista, Leone não conseguiu manter a coerância nos seus últimos registos, em que se chega a arranjar bodes expiatorios como foi o caso do próprio Valerii e Damiano.

      • 26/02/2010 às 13:17

        Admito que ainda não conheço razoavelmente os filmes do valerii, Pedro, mas admirador ferrenho dos Spaghetti que sou, fico feliz em ouvir um nome ser citado com tanta ênfase. Que bom que se tenha tantos ótimos diretores desse gênero, não? Ainda comento filmes do Valerii aqui…

    • 26/02/2010 às 13:14

      Na “pior das hipóteses”, Cesar, ele tem que ser posto no mesmo patamar do Leone. Só que ainda terei que fazer uma revisão mais atualizada deste para dizer melhor. Tenho contudo uma impressão geral que pode distingui-los. O grande Leone é mais preocupado com causar certos efeitos, gosta de uma firula. O Corbucci já é mais seco, tem uma direção mais isenta. E acho que no saldo eu gosto mais disso. Vivo dizendo: até os fãs subestimam, praticamente não citam, o formidável Gli specialisti, que ele dirigiu. Que filme, heim! Enfim, uma última pergunta: pode um fã se tornar fã do próprio fã? hahaha. Explico: eu que era fã do seu Dollari Rosso (quer dizer, pelo que entendi voce que o escrevia né?). Alias, saiba, que foi através do Dolarri Rosso que cheguei aos spaghetti. Simplesmente isso. Depois a gente fala melhor sobre. Abraços.

  5. 26/02/2010 às 11:36

    Se o Spaghetti Western é a antítese do tradicional western americano, este aqui vai mais além… acaba sendo a antítese de ambos! É praticamente um anti-western por excelência, senão vejamos: começamos pelo já citado cenário, montanhas geladas em vez do deserto ensolarado, em vez de uma mocinha loirinha temos uma negra, muito bela por sinal, os caçadores de recompensa, heróis icônicos dos Spaghettis, a partir das obras de Leone, aqui são vilões cruéis e o final niilista apaga qualquer esperança de redenção! Sim, “Il Grande Silenzio” é um filme muito foda! Apesar disso, ainda prefiro de Corbucci “Django” e “Compañeros”. Só para terminar: eu costumo fazer analogia entre este filme e o espanhol “Condenados a Vivir” a.k.a.
    “Cut-Throats Nine” de Joaquín Luis romero Marchent, um filme ainda a ser reavaliado. Embora ambos tenham tramas distintas tem suas semelhanças. Pois o espanhol também se passa nas montanhas, em meio a neve, como também possui uma violência brutal e impregnado de pessimismo. Bem, por enquanto é isso. Parabéns pelo blog.

    • 26/02/2010 às 13:26

      Verdade, Blob! Não prestei atenção devidamente a isso: Il Silenzio de fato é mais subversivo do que parece à primeira vista. Não só é o ápice da antítese do próprio Spaghetti, como vc bem lembrou, como corrompe e destrói todos os clichês previsíveis e imaginináveis nesse gênero. Haha, acho formidável, como já disse aqui, que muitos nem considerem Il Silencio o melhor Corbucci. Isso atesta ainda mais a importancia e a genialidade dele, pois acabam citando outros como o melhor. Agora, por que ninguém ainda citou o antológico Gli specialisti? Vou ter que comentar esse filme aqui pra relembrar o povo… Ah, outro dia mesmo estava pensando em ver esse Condenados a viver, tenho aqui em casa, mas nunca vi. Ótima lembrança sua. Deve ser um dos próximos a serem comentados. Obrigado. E valeu pelas opiniões…

  6. 26/02/2010 às 13:59

    O pessoal sempre fala do Leone, outros falam do Corbucci e eu sempre lembro do Sollima que possui duas obras-primas, mas a verdade é que existem muitos diretores bons e filmes ótimos, alguns diretores só se sobresairam em um ou dois filmes, sendo assim, além da triade dos Sergios, outros italianos também possuem seu valor. Posso citar filmes como Anda muchacho, spara!, El precio de un hombre, Il ritorno di Ringo, Mille dollari sul nero e mais umas dezenas…

  7. 26/02/2010 às 18:25

    Gosto igual de Leone, Sollima e Corbucci, os tres Sergios são matadores! Os filmes que o Octavius citou são maravilhosos. E sobre o Condenados a vivir, ótima lembrança do Blob. Marchent pra mim é um dos grandes mestres. Se Leone é o pai do spaghetti-western, Marchent sem dúvida é o avô.

  8. Cesar Almeida
    26/02/2010 às 18:48

    Se o Ingmar Bergman tivesse dirigido um Spaghetti, este seria o Gli Specialisti! Nem o Leone atingiu o requinte que a direção do Specialisti tem. Concordo com você, Fidani, este é um filme que deveria ser mais lembrado!
    Legal saber que o Dollari Rosso deixou saudades em alguém! Estou trabalhando num livro de Spaghetti Western, esse vai ser o legado final do Dollari…
    Abração e sucesso!

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