Início > Uncategorized > O Mensageiro do Diabo

O Mensageiro do Diabo

Praticamento tudo que leio (e li no decorrer dos anos) a respeito desse “O mensageiro do Diabo” (The Night of the Hunter, EUA, 1955) dá conta de que além de ser um filme fundamental para a consolidação do gênero terror no cinema, apresentava uma brilhante e exemplar caracterização da figura do psicopata, interpretado aqui por Robert Mitchum. Mas a verdade tem que ser dita. O filme não é uma coisa nem outra. Definitivamente não é uma obra aterradora, como apregoam seus admiradores, e, pelo amor de deus, Mitchum é um canastrão de marca maior! Que interpretação antológica que nada!, quem defende isso parece que bebe, ele simplesmente quase destrói o filme com sua patética, constrangedora e uniforme carcaterização!

Porém, vamos por parte. A premissa é boa, muito boa. Mitchum faz um pastor picareta, assassino e ladrão. Na cadeia conhece um homem que assaltou um banco e, antes de ser preso, escondeu o dinheiro em algum lugar da própria casa e só contou o segredo para os 2 filhos pequenos. Quando o pastor sai da cadeia, vai à cidadezinha onde se deu o fato para tentar seduzir a viúva do assaltante e conquistar a simpatia das crianças, com o intuito, claro, de que essas lhe revelem o destino da bolada.

Há que se fazer, entretanto, a abordagem correta para melhor apreciar esse filme. De fato, no saldo o filme é muito bom. A câmera praticamente não se move, os quadros são estáticos. Uma sucessão de belas imagens expressionistas, num impressionante preto & branco, com os personagens se movendo dentro dessa “moldura”. Mas o ritmo é fluente, agradável, o filme não empaca em nenhum momento. Contudo, por ser um filme “de terror” americano dos anos 1950 é previsível que a construção dramática em relação a isso seja falha, e como é! Assustar o filme não assuta, e até o clima de suspense dele é fraco. Hitchcock em filme menores fez muito melhor!

Mitchum: psicopata e canastrão em ação. Filme tem belas imagens.

O que sobra então? Por que ver O mensageiro do Diabo? Fácil. Em meio à sua imperfeição – reviravoltas mirabolantes demais, soluções fáceis para atitudes extremas, personagens caricatos (inclusive o pastor psicopata), e etc – revela-se, lá pela metade final do filme, a chave para seu pleno entendimento. É que deve-se abordar O mensageiro do Diabo como uma fábula infantil e olhá-lo pelos olhos das crianças. O filme cresce quando de fato elas, depois de ficarem órfãs tambem de mãe, empreendem desamparadas uma fuga fantástica através dos campos, rios e florestas, com o vilão, tal qual um Lobo mau dos contos infantis, onipresente em seu encalço. Realmente esse momento do filme é tão pueril, inocente e inverossímel quanto bonito. O destino das crianças quando atingem a cidadezinha mais próxima vai selar e confirmar o verdadeiro tom de contos de fadas desse curioso e superstimado filme. Longe de ser tudo o que falam dele (sobretudo por ter envelhecido mal) mantém-se contudo intacto em sua beleza pictórica, em seu tom de pastoral e de vida campestre, e, por esses detalhes (quase sempre não mencionados) é que merece -e deve- ser visto.

Anúncios
Categorias:Uncategorized
  1. 26/02/2010 às 18:25

    Eu adoro esse filme! E acho que Mitchum está foda! E pior de tudo é que não parece… eu bebo! Hahaha.

  2. 26/02/2010 às 19:41

    Cheguei a ficar tentado a justificar não ter gostado da atuação do Mitchum ao fato dele estar sendo visto pela ótica distorcida das crianças, olha que viagem minha! se assim fosse mesmo, eu teria que chamá-lo de genial.

  3. Cesar Almeida
    26/02/2010 às 21:45

    Gosto do Mitchum. Mas, pelo menos na minha opinião, o melhor psicopata dele é o Max Cady do “Cape Fear” original.

    • 27/02/2010 às 10:52

      Esse que sou louco pra ver. Em tese, acredito até muito mais na força do personagem dele nesse Cape Fear.

  4. 26/02/2010 às 23:36

    Sou suspeito para comentar, pois venero o filme e Mitchum está fantástico. Somente Rutger Hauer em THE HITCHER conseguiu personificar tão bem o mal outra vez nos cinemas depois dele.

    • 27/02/2010 às 10:54

      Rutger Hauer nesse filme, de fato, está inesquecível. Feliz lembrança essa sua, osvaldo!

  5. 27/02/2010 às 14:43

    Também vou ter que discordar de você desta vez, caro Fidani. Mitchum é um dos meus atores favoritos e está genial aqui, na minha opinião. Junto com o visual, ele é a grande força do filme. Mas prefiro o Mitchum na última fase, com Os Amigos de Eddie Coyle, Operação Yakuza, etc…

  6. 27/02/2010 às 22:17

    Pô, Mitchum deve estar feliz lá no além com tantas considerações a favor, hahaha. Ok, vou dar mais uma chance pro cara. Dizem que o melhor trabalho dele é em Cape Fear. Vou ver se é fácil catar esse filme pra ver. E quem sabe esses que voce citou… Té mais.

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: