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O franco-atirador

Poucos filme são tão hipnóticos quanto “O franco-atirador” (The deer hunter, EUA, 1978). Inigualável misto de horror e beleza, é um filme que eleva o patamar de nossos critérios pessoais nesse incurável hábito de taxar grandes filmes (ou filmes que simplesmente agradam um certo aspecto de nosso gosto pessoal) de obras-primas. É inevitável imaginar do que não teria sido capaz o diretor Michael Cimino se não tivessem lhe cortado as asas devido o fracasso financeiro retumbante do seu filme posterior a esse (O portal do paraíso). Com O Franco-atirador ele condensa e exacerba, de forma brilhante e assombrosa, todas as tendências do modo de fazer filmes nos anos 1970. Ecoa e radicaliza O poderoso Chefão e antecipa Apocalipse Now. Não era à toa que Copolla o admirava (e muito) como artista.

A estrutura narrativa do filme remete aos amargos contos morais, ou à Tragédia mesmo. Começa mostrando a vida comum e prosaica dos trabalhadores de uma siderúrgica numa cinzenta e melancólica cidadezinha, a bebedeira depois do expediente, o jogo de sinuca. Depois temos a preparação para a festa de casamento e a confraternização quase da comunidade como um todo num evento extremamente animado. Há ênfase na alegria dessa comemoração, numa impressionate sequência de quase 1 hora de festa, a nos preparar para o horror e o absurdo que viriam a seguir.

Antes do pesadelo, as luzes, a música e alegria de uma bela festa.

Como imergindo direto dentro de um pesadelo somos inadvertidamente jogados, junto com nossos heróis, diretamente dentro do conflito. Como não podia deixar de ser, o filme atinge seu ápice. Cimino mostra toda sua revolta contra a insanidade da Guerra em duas maneiras simbólicas de mostrar o conflito. Uma é quando expõe nossos heróis já capturados por vietcongues, numa improvisada, arcaica e cruel base prisional perdida no meio da floresta, em que seus carceireiros apostam entre si quem dos prisioneiros consegue escapar da roleta-russa. É simplesmente indescritível e chocante toda essa sequência e seus desdobramentos.

O clímax do pesadelo. Sequência é momento marcante do cinema.

Outra forma de simbolizar o conflito é o retrato do caos total das populaçãoes em êxodo pelas estradas rurais, pelas ruas de Saigon e nos arredores da Embaixada americana. Todos evidentemente querendo escapar. Outra série de imagens impressionantes. E o que dizer quando Cimino volta suas lentes para o submundo sinistro de Saigon, onde rapidamente focaliza a prostituição e o crime, em ruas, becos, vielas e prostíbulos sinistros e tristes? Sequencia-chave para o destino de um dos personagens. Quando o personagem do De Niro retorna algum tempo depois para tentar resgatar seu grande amigo das entranhas desse perverso submundo não sobra dúvidas de que adentramos juntos o campo do puro pesadelo e loucura. Transposição mais do que alucinada do mito de Alice no País das Maravilhas.

Depois da trágica odisséia, a tristeza é irreversível. Seres em frangalhos.

Concebido num momento emblemático do cinema americano, O Franco-atirador é um filme como poucos. Melhor dizendo, é um filme único. Possui “tempos mortos” maravilhosos e se detém na imagem, prolongando nosso prazer visual e nosso envolvimento, como poucos até hoje ousaram ou souberam fazer. O franco- atirador é em todos os sentido um filme perdido no tempo. Uma ode ao puro prazer de se fazer (e ver) um filme.

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  1. 07/03/2010 às 16:32

    Obra-prima! E por coincidência acabei de assistir Thunderbold and Lightfoot, estreia do Cimino na direção, e achei um filmaço também!

    • 08/03/2010 às 12:01

      Herax, você viu O ano do dragão ou O siciliano, ambos do Cimino? Vou ver “O ano…” hoje ou amanhã… Já O siciliano batem tanto nesse filme que até me desanima…

  2. 07/03/2010 às 22:13

    Prefiro o The Last Hunter, do Margheritti. Sem piada, prefiro mesmo! É o meu filme preferido sobre a guerra do Vietnã.

    • 08/03/2010 às 14:04

      Vi nada, o único Cimino que vi alem do Franco Atirador foi o Thunderbolt, mas já estou com os outros para ver!

  3. 08/03/2010 às 11:59

    Hã, como é isso, Cesar? O Margheritti fez um remake (ou algo que o valha)?

  4. 08/03/2010 às 14:05

    Outro filme maravilhoso influenciado por O Franco-Atirador é o Bala na Cabeça, do John Woo, que eu também considero uma obra-prima.

  5. Cesar Almeida
    08/03/2010 às 14:58

    O Last Hunter é uma mistura de O Franco Atirador com Apocalypse Now. Até o título em VHS no Brasil é Apocalipse 2. Um filmaço! Nunca vi nada tão frenético. E mesmo com a ação ininterrupta, Margheritti não deixa o drama e o protesto antibelicista de lado. Além do elenco de primeira (encabeçado pelo grande David Warbeck)

  6. caiolefou
    09/03/2010 às 02:42

    Chris Walken!! Aquele tipo de filme que a gente pensa logo, “é, não tinha como ser melhor”. Isso quer dizer, perfeito.

  7. José Luiz
    18/05/2012 às 16:01

    Realmente O Franco Atiradoe é uma obra Prima, desde a vida simples de bons amigos em uma pequena cidade americana cerca por montanhas e a loucura da Guerra, o melhor papel de Robert de Niro.

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