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O ano do Dragão

O ano do Dragão mostra a luta quixotesca de um homem contra o crime.

Terá havido nos anos de 1980, década tão repleta de típicos thrillers policiais, um mais completo do que “O ano do Dragão” (Year of the Dragon, EUA, 1985)? Um que tenha sabido equilibrar de forma tão perfeita o drama e a ação? E os diálogos? Tão ferinos, cínicos e politicamente incorretos proferidos pelo herói da trama! Onde, aliás, estão os diálogos como esses nos thrillers criminais contemporâneos? O roteiro, felizmente, é um dos grandes trunfos desse antológico filme. É orgânico, abrangente, enxuto, proporcionando o espetacular crescendo da tensão e da violência que campeiam nessa obra.

O quadro geral com que nos deparamos, por si só, é assustador e algo fascinante: uma guerra, em suma, dentro da própria ramificação da máfia chinesa que atua no bairro novaiorquino de Chinatown, promovida (traiçoeiramente) pelo mais jovem e ambicioso de seus integrantes, que pretende presidir a organização. Valendo-se da ação kamikase de gangues de rua (as quais consegue capitanear) compostos por garotos muito jovens, violentos e inconsequentes, ele faz Chinatown explodir com atentados, assassinatos e as mais diversas modalidades criminosas.

É então que entra em cena o nosso herói. E herói aqui extrapola mesmo o termo generalizado com que as vezes nos referimos aos protagonistas. Na pele do capitão de polícia Stanley White, Mickey Rourke encarna perfeitamente o mito do (super) herói contemporâneo. Um (super) herói plausível, verossímil, irresistível. Stanley White representa a luta do exercícito de um homem só contra as superengrenagens poderosas do mundo do crime. Ele é obstinado e obsessivo. É daqueles tipos que têm que lutar não somente contra o bandido propriamente dito, mas contra os acordos “seculares” e tácitos existentes entre o Estado e o Crime Organizado. Mas ele não desiste. Nem que os seus, entre familiares e amigos, caiam uns a sua direita, outros a sua esquerda. White busca a justiça e a verdade, tem a vocação nata do herói. Isso está esplendidamente caracterizado no personagem. Mas como estamos num filme policial dos tempos modernos ele jamais poderia ser perfeito. Incorruptível sim, mas devido a seu caráter obcecado, jamais deixaria de ser cínico e egocêntrico, e um tanto indiferente a tudo que não diga relação com sua finalidade maior. E também (isso não podia faltar) não faz a mínima cerimônia em quebrar o protocolo e as regras burocráticas e legais para agilizar sua investigação (espancando suspeitos, invadindo estabelecimentos sem ordem judicial, etc). No fundo ele não se conforma é com o cinismo e a condescendência com que o crime é tratado pelas instâncias superiores. Sua luta maior talvez seja contra isso.

Rouke, pelo que me lembre, jamais encarnou tão bem um tipo. Seu personagem é complexo e consistente, palpável, realista. Coisa rara nesse tipo de filme, e sua interpretação é digna de nota. Mordaz e brutal na medida certa. E o cenário é perfeito para a figura de filme noir que ele representa, com sobretudo e chapéu à La Bogart: calçadas poluídas visualmente pelo engarrafamento de gente e por estreitas ruas apinhadas de automóveis sob as cores quentes do néon e de toda a parafernália decorativa do famoso bairro em questão. É como se fosse um outro mundo, uma outra cidade à margem da grande metrópole (aliás como diz em determinado momento um dos personagens do filme).

Território duplamente sedutor e sombrio do filme lembra o de Blade Runner.

Tudo isso manipulado de forma magistral pela direção do grande Michael Cimino, o Malditão. Sua composição de quadros é sensacional. Possui ainda aquele corte clássico, denso e belo dos anos de 1970. Sem que a montagem deixe de soar mais dinâmica e ágil, eletrizante e tensa, como deve ser num bom filme do gênero. Se bem que, para nosso deleite, aqui se trate de muito mais do que somente um “bom filme do gênero”. Muito mais do que um entretenimento do mais alto nível. Trata-se de obra Obrigatória em qualquer antologia do cinema moderno.

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Categorias:Uncategorized
  1. 09/03/2010 às 19:23

    Uau!!!

  2. 09/03/2010 às 19:58

    Hehe. A propósito, Herax, voce que viu o primeiro filme do homem, o que me diz sobre? Gosto muito desse dramas policiais dos anos 80, mas devo ter viso menos do que deveria, eu acho. Teria alguma dica de ouro na cartola aí pra mim? (Tem um do ken Russel sobre uma prostituta, ou algo assim, se não me falha a memoria, mas esqueci o nome)…

    • 10/03/2010 às 11:36

      Sei que a pergunta foi pro Herax, mas deixa eu me intrometer? hehe
      Já viu Viver e Morrer em LA e Parceiros do Crime, do Friedkin? Tem também Dragão Vermelho (Michael Mann) e Colors (Dennis Hopper)… caramba, não estou me lembrando de outros. Também adoro esses dramas policiais dos 80.

  3. 10/03/2010 às 13:45

    Thunderbolt and Lightfoot é do caralho! Envolve quatro canalhas (Clint Eastwood, George Kennedy, Jeff Bridges e Geoffrey Lewis – que trupe!) organizando um assalto a banco! É bom demais! O filme do Ken Russel que voce citou é o Crimes de Paixão (Crimes of Passion), mas infelizmente eu não vi ainda. Dramas policiais dos anos 80 tem vários, além das obras-primas do Friedkin que o Ronald citou, não posso deixar de recomendar Fronteira da Violência (The Border) e Liberdade Condicional (Straight Time), se bem que esse último é de 78 na realidade.

  4. 10/03/2010 às 15:50

    Hola, compañeros! Valeu pelas dicas!!! Por sorte, Herax, esses dois que voce citou aí embaixo têm na locadora em que sou assinante. Não os conhecia em absoluto, mas pelas sinopses e pelas suas recomendações, acredito que seja pra ver ONTEM! E, Perrone, acho que a primeira vez que ouvi falar nesse Viver e Morrer em LA foi no seu Blog, se não me engano. Vou pegar logo também. O Dragão vermelho vou ter que “baixar” mesmo, pois não está sendo fácil encontrar. É sobre as origens do Hannibal Lecter, não? Promete! Tou vendo que meus próximos dias vai ser dedicado a esse tipo de filmes. Vou ver daqui a pouco “Sem perdão”, aquele thriller com a Kim Bassinger, alguém conhece?

  5. 10/03/2010 às 16:01

    O Dragão Vermelho do Mann divide opiniões. Eu gosto, mas não acho que seja um dos grandes filmes do Mann não, prefiro outros. Sem Perdão eu nunca vi. E quanto as minhas recomendações, espero que você goste dos filmes!

  6. 10/03/2010 às 16:22

    Viver e Morrer em LA é um dos meus filmes policiais preferidos de todos os tempos! Espero que goste também…

    Já o Dragão Vermelho, realmente, em comparação com outros filmes do Mann, fica abaixo, mas dentro do contexto “filmes policiais” dos anos 80 ele é obrigatório. Ah, e outro do Mann que eu recomendo é o Profissão: Ladrão (Thief, no original), com James Caan! Filmaço! Só não sei se foi lançado por aqui…

    Assisti outro dia o Corpos Ardentes, do Lawrence Kasdan, que é um neo-noir bem interessante e a Kathleen Turner está estonteante!!!

    • 10/03/2010 às 16:24

      Na verdade, o Corpos Ardentes não e bem um policial, né? Mas se não tiverem visto ainda, recomendo!

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