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El Topo


Filmes podem ser uma expriência profundamente desconcertante? El Topo (MEX, 1970) demonstra que sim. O enredo aqui não importa; nem a trama. Diante de tamanha sequência de imagens imprevisíveis e inacreditáveis, que importância haveria de ter um detalhe tão comum como um roteiro? É a pergunta que deveria ser feita. Por mim haveria mais filmes como El Topo. Ele prova que filmes também podem ser uma matéria fluida, indefinida, um corpo que não se deixa apreender nem justificar. El Topo é o mais incrível sonho filmado que eu vi até hoje. E olha que conheço bem o cinema de Buñuel, Fellini e Peter Greenaway, notáveis mestres do absurdo filmado. Porém Jodorowsky aqui, poder-se-ia dizer, dá sempre mais um passo, estica a cena um pouco mais do que recomendaria o bom senso. A sensação de sonho (bom ou mal) é imediata. Simplesmente impossível despregar os olhos da tela, para o bem ou para o mal de nós mesmos, pois nem sempre o que se vê agrada os sentidos.

Filme tem várias sequências onde o exagero e o delirante dão o tom.

Porque El Topo, antes de tudo, é uma impressionante colagem de quadros surrealistas. Essa sensação de vagueza e fluidez da verossimilhança é embasada na feliz escolha do esboço de tema, digamos assim: Jodorowski se apropria da mítica figura do cavaleiro solitário dos westerns. Aquele sujeito que, todos sabem, surge de nenhum lugar e está sempre de passagem, rumo a lugar nenhum. Ele tem uma missão, mas a impressão é que vai sendo relegada no transcorrer do seu percurso: abandona o filho, encontra uma mulher, desafia os 4 maiores pistoleiros do western, é abandonado… E muito mais. Existe até um que de crítica social com passagens satirizando o poder da Igreja e das classes dominantes, mas os quadros são imediatamente extrapolados, tanto que logo se perde a sensação inicial e novamente somos submergidos no puramente onírico!

Córrego de sangue com que se depara nosso herói: Beleza tétrica.

El Topo é uma insólita mistura do horror com o grotesco, descambando não raro para a comédia. Porém é um riso nervoso o que se desprende, um riso de incredulidade, de espanto. Raríssimos filmes despertam isso. Sua força está exatamente onde deve estar: nas imagens, na luz, na cor, nas sombras; nos movimentos dos atores em cena e na captação dos amplos espaços desérticos. Nos cortes inesperados e abruptos; na quebra da sequencia lógica do fluxo dos quadros. Ou seja, nessa mesma trangressão absoluta na maneira natural ou previsivel de enquadrar e depois “costurar” um filme. Isso que à princípio causa estranheza aos poucos acaba por seduzir. El Topo, em sua imperfeição estética, em sua lógica absurda, em sua transgressão narrativa, acaba por se tornar um filme único.

El Topo também tem seus momentos de singela e inofensiva poesia.

Inevitavelmente, diante de El Topo, buscamos referências ou paralelos para a nossa própria localização. Talvez em busca de algum conforto. Muito se falou nas influências de Fellini e Buñuel. Sim, está mais do que evidente. E isso já torna o filme fantástico. Nenhum outro cineasta soube retratar com tamanha ternura, severidade e humor criaturas estranhas e grotescas quanto o mestre italiano. É praticamente impossível Jodorowsky não ter bebido dessa fonte. Assim como do surrealismo buñuelesco. Mas que não nos enganemos: sua obra não se contenta em somente se deixar influenciar. Dessa mistura surpreendente de influências nasceu uma obra autônoma, de força própria. Todavia, que eu saiba, ninguém lembrou de citar a clara influência que o cinema de Glauber Rocha, sobretudo seu Deus e o Diabo na Terra do Sol, deverá ter exercido especialmente nesse aqui. Porém sempre com Jodorowsky indo mais fundo e, principalmente, com mais humor.

O insólito, o grotesco, o horror e o humor andam juntos em El Topo.

Talvez a chave para a permanência e a excelência de El Topo estejam justamente nesse humor sinistro que emana do filme. Ele radicaliza em dez graus de potência a sujeira, a maldade e a feiúra dos western-spaghetti. Por mais chocantes que sejam as imagens em certos momentos da narrativa, logo haverá o contraponto do ridículo, do nonsense. E daí novamente para o puramente onírico é somente um passo. Ninguém que assista El Topo fica indiferente, absolutamente ninguém. Primordialmente de que mais, afinal de contas, precisa um filme?

Desde a primeira sequência, pelo inusitado, o filme mostra a que veio.

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  1. 21/03/2010 às 03:48

    Cara, eu preciso te dizer uma coisa: você escreve bem pacas. Parabéns pelo blog e pela seleção de críticas bastante refinada! El Topo é um filme que eu ainda não vi e, depois de suas observações, fiquei doido para assistir. Parabéns novamente

  2. 21/03/2010 às 11:25

    Oi, Jean. Valeu pela sua boa vontade com o Blog, hehe. Quanto a El Topo, cara, assista sim. Filme obrigatório para qualquer cinéfilo ou simples admirador da sétima arte. O meu Blog ainda sofre de certa “crise de identidade”, mas acho que de determinada forma ele descamba para a visão de filmes de alta qualidade, porém um tanto obscuros ou aqueles simplesmente esquecidos, ainda que em sua época tenham feito algum sucesso. A escolha do próximo filme a ver é absolutamente aleatória, é surpresa até pra mim, haha. Abraços, compañero!

  3. 21/03/2010 às 15:04

    Sem dúvida EL TOPO é uma das maiores experiências cinematográficas que tive na vida.

  4. 21/03/2010 às 16:44

    E A Montanha Sagrada, Herax? É visualmente tão impactante e prazeroso quanto El Topo? Tou animado em ver esse agora.

    • 22/03/2010 às 01:42

      Você não vai acreditar, mas eu ia te perguntar a mesma coisa, pois ainda não vi A Montanha Sagrada, que parece ser outra obra-prima avassaladora.

      • 22/03/2010 às 05:20

        Na minha opinião, A Montanha Sagrada consegue ser ainda mais impactante que El Topo nesse sentido… é inacreditável e não há palavras para descrever a experiencia deste filme.

  5. Cesar Almeida
    21/03/2010 às 21:02

    Um filme pra ver uma vez na vida e lembrar pelo resto dela…

  6. 22/03/2010 às 11:24

    Pronto. O Perrone já deu o parecer dele, não precisa dizer mais nada, hehe. Bem, felizmente A Montanha Sagrada tem na Locadora em que eu alugo. Só não sei por que Diabos o filme não pára lá!

    • 22/03/2010 às 12:04

      Quando você assistir, vai saber porque ele não para lá… hehe

      Outro que recomendo é o Santa Sangre, forma a trindade com as obras primas do Jodo junto com El Topo e Montanha Sagrada e é tao fascinante quanto esse dois.

  7. Davi OP
    25/03/2010 às 03:31

    Eu adoro “El Topo” e gosto de “A Montanha Sagrada”, Perrone. No entanto, “Santa Sangre” está em outro nível. É um dos maiores filmes já realizados, na minha opinião. É tão fascinante quanto o restante da filmografia de Jodorowsky reunida, sem desmerecer as outras obras.

  8. 25/03/2010 às 12:57

    Acho El Topo perfeito, uma boa mistura de tudo que não se espera. Apenas não concordo com você em relação a não ter ou seguir um roteiro, para mim o filme possui um fortissimo roteiro que gera imagens e situações de grande simbolismo religioso. O personagem principal vai do poder, luxuria a redenção.

  9. 14/08/2010 às 19:13

    Conversei com o Jodorovsky em 2007, no hall do hotel no qual se hospedou em São Paulo (surreal, até leu o tarô para mim). E ele disse que se diverte com quem tenta encontrar um significado para cada imagem maluca que ele apresenta.

  10. 05/11/2011 às 20:34

    É o que eu constumo dizer, sinteticamente: Jodorowsky é o verdadeiro David Lynch.

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