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A Fonte da Donzela

Esse é um filme que seduz. Desde as primeiras cenas, quando somos inseridos em um ambiente completamente arcaico, rural e primitivo de uma casa, e seus habitantes, isolados em um confim qualquer. Estamos na Idade Média. Os seres que protagonizam esse drama são esfarrapados, alguns loucos, desdentados, descabelados. Deslocam-se em chãos enlameados onde galinhas cacarejam e galos cantam. O ambiente nos interiores é de escuridão e de precariedade. A luz que advém é de pequenas fogueiras acessas dentro de casa, na cozinha, ou de fachos de luz que penetram aqui e ali por rachaduras ou por toscas janelas de madeira. É uma luz reconfortante. Jamais um filme foi tão escrupulosamente iluminado como esse “A fonte da Donzela” (Jungfrukällan, SUE, 1963). As imagens geradas são de uma beleza indescritível. Mais ainda: Jamais um filme de gente suja, feia e malvada foi tão bem iluminado e fotografado. Grande parte do encanto desse filme reside aqui. Bastaria para justificar vê-lo a todo custo! Porém, o filme é muito, muito mais que isso.

O que temos aqui, afinal? Uma fábula para adultos. Orquestrada de forma tão simples e direta que chega a comover. Temos uma família rigorosamente religiosa, daquelas que não soltam um arroto sem depois louvar a deus por isso. Há duas filhas. Uma se desviou, engravidou ilegitimamente e meio que pirou! A outra é a tal donzela do título. Linda de morrer. Virginal. Graciosa. Inocente. Numa bela sexta-feira da paixão de manhã ensolarada ela é designada pelos pais a atravessar a sombria floresta (acompanhada da irmã biruta), as duas cavalgando, para levar à Igreja as velas para a Missa sagrada. Só que no meio do caminho encontram um trio de malignos pastores e aí já viu, né?

A donzela cai nas garras dos Lobos. Momento crucial do filme.

Quem ainda não conhece o cinema de Bergman, certamente deve começar por esse. Aqui não há o blábláblá religioso-metafísico, que pode soar excessivo pros iniciados, presente no sempre indicado “O sétimo selo” nem a cansativa reminiscência poética de “Morangos silvestres”. Não, não se deve iniciar Bergman por esses citados filmes. Quando que a crítica especializada vai aprender a modernizar e rever seus jurássicos conceitos?

Pois aqui a história é diferente. Aqui é onde Bergman deixa um pouco de lado o discurso e parte pra ação, vamos colocar assim. Onde de forma excepcional nos mostra o choque concreto e real entre duas realidades extremamente distintas para ver o que ocorre. A inocência e a beleza da donzela confrontados de modo explícito com a brutalidade de homens perversos e instintivos. Essa sequência no meio da floresta é forte. Violenta. Aterradora. Não há como não dizer: a virgem será brutalmente violada. Tudo encenado de forma direta, seca, sem espetacularização.

A partir de então, cometido o delito, o bando em fuga vai cruzar o caminho da família da moça. E descobrindo a identidade deles, o que poderá fazer um homem temente a deus, que ao que tudo indica sempre foi pacífico? Não se enganem. A violência vai explodir. Em sequencias enxutas, secas, atordoantes. Um Bergman brutal, realista, angustiante. Em que o homem mais nada é do que demasiadamente humano apenas, e isso basta.

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