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Posts Tagged ‘Horror Italiano’

A Casa do Cemitério

Eu desconfiava que o dia em que iria me deparar com um filme ruim do Lucio Fulci (afinal ninguém é perfeito) haveria de chegar, e chegou em grande estilo com esse A casa do Cemitério (The house by the Cemetery, 1981)! Gostaria de saber as circunstâncias em que ele foi concebido, pois só consigo aceitar que somente algum fator externo muito forte, seja ele lá qual tenha sido, tenha levado o homem a assinar isso aqui. Terão sido obrigações contratuais com a extinta Fulvia Films? Terá sido o temor das conhecidas dificuldades que o diretor enfrentava na época de terem seus filmes produzidos que o levou a filmar in loco qualquer oportunidade que surgisse? Pois aqui se sente isso claramente. Parece um filme concebido no automático. Longe, muito longe do vigor e da impulsão criativas características do subestimado mestre. E o espantoso nem é o roteiro ser ruim e forçado, sem pé nem cabeça (mais do que o normalmente esperado nesse tipo de filmes) e cheio de buracos, com pontas que jamais se completam. O espantoso é saber que o próprio Fulci co-escreveu o roteiro! Não, meus irmãos, algo teria havido!

A fantasminha que se comunica com nosso pequeno herói.

A trama, em resumo, é o seguinte: um professor universitário se muda com a mulher e o filho de uns 5 anos para uma velha mansão isolada para terminar uma espécie de pesquisa histórico/científica iniciada por um colega e interrompida com o suicídio desse, após a morte da família em circunstâncias não muito bem explícitas. Instalando-se na mansão, misteriosos e assustadores eventos começam a ocorrer. O garotinho tem o poder paranormal de se comunicar com uma menina morta que desde o começo do filme iniste em adverti-lo de que sua família não deveria se instalar na mansão. Como se vê é obvia a alusão ao clássico “O iluminado”, do Kubrick. E esse ponto de partida realmente é animador.

Horrenda criatura: monstro, zumbi e canibal!

Porém, ao se instalarem na casa é que não somente os problemas da família se iniciam. Os graves problemas do filme, infelizmente, também. Não se trata de ser demasiadamente exigente com esse tipo de obra, claro. Quanto mais sendo de um cineasta que estou aprendendo a admirar, mas a sucessão de incongruências e furos na verossimilhança mínima requerida em qualquer tipo de filme aqui são tão gritantes e o desenlace das cenas tão bisonhas, apelativas e injustificáveis que se acaba por perder completamente a paciência. No fundo o filme é todo construído em função de expor a criatura medonha, mostruosa e canibal que ‘soluciona’ e justifica o filme. Pior que não soluciona ou justifica nada. Somente motiva sequências básicas e absurdamente automáticas com o intuito de causar medo. As situações no geral aqui tornam-se enfadonhas e cansativas pois não há inventividade nem variações na exploração do roteiro. Fica-se girando em círculos e em certo momento a coisa toda se torna muito muito cansativa. Ao menos o filme tem somente 86 min.

Cara a cara com o Mostro do Porão: aí não tem pra onde correr.

A casa do cemiterio só não é um filme completamente descartável porque, afinal de contas, ainda é um filme do Lucio Fuci, ora bolas. Aqui e ali dá sim pra perceber uma sombra da velha habilidade em construir atmosferas ou um ou outro belo enquadramento típicos do velho mestre. E juntando esses cacos dá para ir levando até o fim. Desfecho que (Última cena mesma), aliás (justiça seja feita), é admirável. Mas, realmente, muito pouco para o que se esperaria no total. Realmente só posso acreditar que o velho mestre estava de má vontade aqui. Ainda bem que logo a seguir ele, novamente feliz e filmando com todo o vigor, nos brindaria com o exultante “The new York Ripper”.

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Prelúdio Para Matar

Há que ser ter uma enorme condescendência com os Giallos. Um gênero que, embora inegavelmente criativo e que ajudou a renovar esse tipo de cinema, influenciando a criação de vários e célebres personagens do horror moderno, é bastante restrito e limitado quanto à fórmulas, vamos dizer assim. E sempre será imaturo ou exagerado quanto à criação de núcleos dramáticos. Uns adoram; outros detestam. Talvez eu fique no meio termo. Em relação a esse “Prelúdio para Matar” (Profondo Rosso, ITA, 1975), por exemplo, espécie de síntese máxima dos elementos que caracterizam o estilo, a condescendência, ao contrário do que se poderia supor, tem que ser ainda maior.

Pois na história do músico que, da rua, testemunha um assassinato ocorrido num apartamento defronte e se alia a uma jornalista, para investigar o culpado, é inegável a sensação de tédio que predomina até quase a metade do filme no decurso da “investigação” empreendidaa por eles. Sem contar que o romance deles não convence nem a eles próprios, quem dirá ao espectador. Esse tédio é representado pela completa ausência de um elemento dramático mínimo que seja, uma tensão verdadeira qualquer, um conflito, enquanto não somos brindados com mais uma cena de assassinato.

O primeiro assassinato. Cena antológica que desencadeia a trama.

Assassinatos que são, evidentemente, a razão de ser do filme. E, justiça seja feita, são muito bem concebidas. Há vigor criativo e certa tensão nessas cenas. Antológica a cena da médium sendo golpeada por tras dos vidros da janela fechada enquanto tenta pedir socorro ao músico na rua. E também a sequência inteira do assassinato da escritora em sua casa de campo. Sem dúvida a melhor do filme. Ali se sente o desamparo da vítima, a solidão, o medo. Puro terror.

Na casa de campo, a sequência mais arrepiante. Vale pelo filme todo.

Porém entre um assassinato e outro, o filme varia entre o prolixo e vazio. Sensação multiplicada pela desmedida utilização de tomadas longas e planos fixos. Realmente não combina com esse tipo de filme, a não ser que o roteiro fosse relamente impecável e as atuações brilhantes. Confesso que tive que lutar contra o sono.

E a música? Convenhamos, estragou completamente o que seria a ótima sequência da investigação na mansão. Matou o clima e a atmosfera. Ainda que toda a sequência, como muitas nesse filme, tenha sido esticada além do aceitável, poderia-se ter um melhor resultado com uma trilha adequada. As vezes o feijão com arroz cai melhor que qualquer outro prato.

A cara de paisagem do ator David Hemmings não ajudou muito não.

“Profondo Rosso” envelheceu mal? Pra que um filme de 130 minutos quando se tinha material para no máximo 90? Esse é, de fato, como apregoam os admiradores de Argento, o melhor filme dele? Tenho cá minhas suspeitas (embora não tenha visto nada dele além desse) de que ele tenha feito coisa melhor. Embora, da “Santa Trindade” do cinema de Horror Italiano, ele evidentemente seja inferior ao Bava e ao Fulci. Ou alguém duvida disso?

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