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Zombie 2

Uma coisa ninguém pode negar: Lucio Fulci sabe criar uma atmosfera de terror. Mais: sabe criar pequenos anti-clímax como poucos. Mesmo que gratuitamente; mesmo que esses anti-clímax e seus desfechos, isolados, não acrescentem muito ao conjunto. Mas, bastam por si mesmos e atestam a capacidade de grande esteta desse cineasta deslocado. Por exemplo: a segunda sequência de “Zombie 2” (Zombie, ITA, 1979), logo na abertura, mostra do alto o pequeno veleiro à deriva no Rio Hudson, com a estátua da liberdade ao fundo, e toda a silhueta dos arranhas-céus de Manhatan. Bonito. Aos poucos vamos ficar sabendo que o barco está vazio, que algo misterioso ocorreu. Uma patrulha marítima se aproxima, aborda e adentra a embarcação. O desenrolar da sequência dá uma pista do que se virá. Pelo modo como se dá a apresentação do primeiro zumbi, fica claro que esse será um filme de morto-vivo diferente. Rapidamente, numa sucessão exemplar de acontecimentos, temos um quarteto (dois casais) se dirigindo à misteriosa ilha perdida no Caribe onde se investigará à causa dos misteriosos acontecimentos dos mortos voltando à vida.

A primeira pergunta que se pode fazer: Ah, então teremos um filme de zumbi em que se tentará elaborar uma justificativa plausível (por mais inverossímil que seja, óbvio) para a origem dessas horrendas criaturas? É o que o desenrolar dos acontecimentos até certo momento nos fará crer. Mas não só isso. Fulci, com material tão banal, repulsivo e desprezível, filma (como é habitual) com tanto rigor, tanta engenhosidade na construção da mise-en-cene, enquadrada com tanto estilo e equilibrio, que é impossível duvidar (até certo ponto) daquilo que é mostrado. Mesmo que gratuitos alguns momentos são de fato antológicos: fácil apontar toda a sequência da preparação do mergulho da moça em alto mar até o inacreditável desfecho, lá no fundo dágua, da luta do zumbi com um tubarão: passa-se do frenesi da sensualidade da dança aquática da mulher ao puro terror da luta dela com o zumbi e, aliviados e zombeterios, vemos o duelo desse com o Tubarão. Criativo e genial.

No entanto, algo nunca se encaixa em filmes de zumbis. São toscas e irrisórias as tentativas de justificá-los, e toda a conversa fiada do viés científico/investigativo empreendida pela espécie de cientista louco que estuda as criaturas na ilha, logo vem abaixo quando os zumbis partem pra fazer aquilo em que eles realmente são bons: botar o terror, dirigir-se lenta e implacavelmente na direção dos vivos, que acuados e impotentes, pouco têm a fazer para evitar de serem devorados. Filme de zumbi, sabemos, é para isso mesmo. Então não adianta reclamar. Mas fica a frustrada  sensação de que Fulci não estava nem aí para a enganosa consistência místico-religiosa que até então estava sendo arquitetada (ainda que de forma vaga) e, numa evidente “pressa” para acabar logo com aquilo, tenha partido logo pros finalmente. Afinal filme de zumbi é pra quê? Não adianta reclamar.

Zumbis caminham para dominar Nova Yorque: evidente vigor criativo.

Finalizando, nunca vou deixar de me espantar diante do fato de como um cineasta com o talento de um Lucio Fulci de certa forma tenha se perdido em tão toscas e baratas produções. Mas uma coisa é certa: ao dispor sua evidente genialidade, rigor formal e vigor criativo a serviço de tralhas como essas (e outras afins) ao menos ele nos legou peças inegavelmente sedutoras e de uma estranha beleza.