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Gli Specialisti

Os nobres habitantes da cidade de Blackstone entram em polvorosa ao saber que o cavaleiro solitário Hud, cujo irmão foi recentemente linchado e morto na referida localidade, se encontra a caminho. Charlie, o irmão morto, foi envolvido numa trama mal esclarecida de golpe bancário e acusado de roubo. O dinheiro desaparecera e, mesmo prestes a morrer, ele não revelara o destino da grana. A viúva Pollywood, banqueira, é a única que detém a verdade dos fatos, mas usando sua beleza e poder de sedução manipula a todos, com o intuito de manter a verdade submersa e cair fora assim que for possível.

O vingador Hud chega à Blackstone em busca da verdade.

Gli Specialisti (ITA/FRA/ALE, 1969) é daqueles westerns spaghetti que está uns passos adiante dos exemplares do gênero. Afinal, embora a trama seja simplória e careça de maiores implicações e desdobramentos, temos aqui mais uma direção acima da média do grande Corbucci. Ele, como de costume, constrói uma encenação densa, de movimentos vagarosos e elegantes nas habituais tomadas longas e uma precisa justaposição de planos abertos e fechados. Naturalmente cria tensão narrativa. Eu acho praticamente impossível começar a ver um spaghetti do Corbucci e não ir avidamente até o fim. Há contrapontos curiosos e interessantes nesse aqui, como a inclusão de um grupo de quatro adolescentes hippies (!), que perambulam pelos arredores, fumam baseado; azucrinam quando podem, pregando alguma revolução, etc. Terão uma participação importante na insólita sequência final.

O sórdido e cruel bandoleiro El Diablo após o sangrento confronto.

No mais, fica aqui a sensação de que, para além da sempre presente atmosfera sombria e pessimista dos westerns do Corbucci, alguma sutil tristeza penetra no clima geral do filme. Ela está presente na solidão da casa isolada nas montanhas onde vive a belíssima Helba; nos profundos vales montanhosos onde o vento nunca para de uivar; na ânsia desesperada dos habitantes ao se deparar com a destruição definitiva do seu dinheiro; no trágico e sangrento desfecho. Desfecho igualmente poético e desesperançado no que se refere ao enigmático herói Hud. Tristeza, afinal de contas, caractérística de todo bom Spaghetti do Corbucci. Com ele o gênero, como se sabe, foi muito mais além do que o cinismo da paródia fácil e iconoclasta dos sagrados símbolos do clássico western americano.

Johnny Yuma

Nós os admiradores do Western Spaghetti jamais iremos cansar de nos queixar da injustiça com que esse gênero é tratado. Com relação à crítica, só a burrice pode explicar por que certos exemplares do Spaghetti ficaram relegados ao menosprezo; quanto ao público prefiro apostar na desinformação mesmo. Tomo como exemplo esse “Johnny Yuma, O vingador” (Johnny Yumma, ITA, 1966).

Desde as primeiras sequências fica evidente que estamos diante de um Spaghetti muitíssimo bem elaborado em todos os sentidos. Começando pela trama, um pouco insólita para esse tipo de filme, pois apresenta uma perfeita mulher fatal, típica dos filmes noir. Usando e abusando de seu grande poder de sedução e beleza ela não medirá esforços para impedir o sobrinho do marido, cujo assassinato ela tramou com o irmão, de assumir o controle da fazenda e da riqueza que possui – já que não tiveram filhos e o sobrinho é o único herdeiro. O sobrinho é justamente o nosso herói, Johnny Yuma, o típico cavaleiro solitário dos westerns. Com a entrada em cena do ex-amante da viúva negra, que retorna a pedido desta para despachar nosso herói, temos pronto um Imbroglio dos mais promissores.

Ademais, é impossível deixar de enaltecer duas brilhantes qualidades de “Johnny Yuma, O vingador“. Primeiro, a direção absolutamente precisa de Romulo Guerrieri. Essa foi a grande surpresa pra mim! Será que os outros filmes dele possuem essa qualidade evidente na composição de cena, nos enquadramentos? Digo sem exagero que é coisa de mestre. Muitas vezes a genialidade está na simplicidade. “Johnny Yuma” é uma inequívoca aula de como se narrar por meio de imagens. Coisa que poucos sabem fazer, vamos dizer a verdade. Guerrieri tem o tempo preciso de cada tomada, o equilíbrio certo da cenografia, uma direção muito elegante em vários momentos. A sequência de imagens, do começo ao fim, fluem muito agradavelmente diante de nossos olhos. E, completando, não lembro de ter visto um Spaghetti com certa preocupação harmônica relativa às cores. Deve ter aqui influência do Douglas Sirk! São detalhes, no fim das contas. Mas que sem dúvida servem para enriquecer ainda mais esse exemplar imperdível do mais subestimado e genial dos sub-gêneros cinematográficos.

(Ah maldito seja eu se não mencionar a eletrizante atuação dessa maravilhosa Rosalba Neri, como a fatal Samantha! Que mulher é essa!? Portadora de uma beleza selvagem, dura, ostensiva (e nada convencional). Carrega tudo no olhar: a maldade, a determinação, a ironia e a sensualidade. Quem há de resistir?)

A bela e fatal Rosalba Neri. Ah essas mulheres do Spaghetti!

Cemitério Sem Cruzes

Como todo bom Spaghetti que se preze, nesse “Cimitero Senza Croci” (ITA/FRA, 1968) o espírito da vingança é que move os personagens. Temos o clássico conflito de terras, em que, devido a uma rixa, logo na abertura do filme, um pequeno proprietário é caçado como um animal e enforcado covardemente na frente da esposa. Esta empreendererá então um fria e meticulosa revanche, auxiliada por um típico cavaleiro solitário, amigo do marido.

O vingador, representado pelo o ator (e também diretor do filme) Robert Houssein, é um cowboy amargurado e taciturno, único habitante de uma cidade-fantasma perdida no deserto.

O sentimento de desamparo e solidão, aliás, dão a tônica desse belo e surpreendente filme. Desde o princípio somos confrontados com a impotência e o sentimento trágico, que permeiam toda a narrativa: quem ouve as deseperadas súplicas da esposa diante do enforcamento do marido? Quem pode entender ou suportar o completo isolamento do herói numa cidadela devastada e sombria? Quem poderá impedir o rapto da filha do fazendeiro, desprotegida na casa vazia no meio do nada? Para consolidar tal sentimento que nos atordoa, Cemitério Sem Cruzes, um filme extremamente silencioso e quase mudo, não prescinde (muito sábia e brilhantemente) de nos inundar com pequenos, cristalinos e atordoantes sons. Penso que Houssein concebeu sua obra-prima desde o princípio somente para nos deleitar com (em meio ao silêncio das solidões desérticas) o som dos trotes da cavalaria em perseguição, o som cristalinos dos talheres durante a refeição, o som das botas pisando enfaticamente no soalhos, o som das moedas tilintando atabalhoadamente quando despejadas sobre a mesa, o som de um relincho. Sem contar portas e janelas que rangem. É um filme sonoricamente muito rico, aspecto que facilmente salta logo aos ouvidos atentos. Bem apropriado para aguçar os sentidos. Que outro western, quanto mais um sapghetti, se deu ao luxo de tanta minúncia, tanta precisão na parte sonora? E olha que o cinema europeu dos anos 60 com relação à edição de som, como sabemos, não era lá essas coisas! O que só multiplica o mérito dessa investida aqui exposta.

Por fim, para além de ser um formidável entretenimento, com sua narrativa fluida e hipnótica, de poucas palavras e baseada na imagem e no som, e com suas pequenas e precisas reviravoltas, com os típicos simbolismos e código de conduta dos homens e mulheres do “velho oeste”, Cemitério sem cruzes também é um filme denso e triste, muito triste. Seu melodramático (e por vezes pungente) tema musical (que se repete ao longo da história) só serve para enfatizar ainda mais o tom desolado dessa dolorida e trágica aventura.